TOLERÂNCIA ZERO COM A CORRUPÇÃO: Corrupção e Reforma Política

Por MARCOS CINTRA, doutor em Economia pela Universidade Harvard (Estados Unidos), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

Todo ano a ONG (Organização Não Governamental) Transparência Internacional produz o ranking dos países mais corruptos do mundo. Para elaborar a relação, a entidade questiona o setor privado sobre a frequência com que é obrigado a pagar propinas ao governo, corromper funcionários estatais ou contribuir para desviar dinheiro público.


O último levantamento da corrupção ao redor do mundo refere-se a 2011 e abrange 183 nações. Conforme esse relatório, os três países mais honestos são: Nova Zelândia, Dinamarca e Finlândia. Na América do Sul o destaque fica para o Chile, na 22ª posição. Os Estados Unidos estão em 24º lugar.
A situação do Brasil, como todo ano ocorre, continua sendo vexatória. O País ficou em 73º lugar, atrás de nações como Arábia Saudita, Turquia, África do Sul, Botsuana, Gana e Ruanda. Isso mesmo, em países africanos e do Oriente Médio, onde a ilicitude nas relações público-privada é, historicamente, vista como fenômeno endêmico, a corrupção é menos perceptível que na sociedade brasileira.
O fato é que não daria mesmo para esperar que a percepção da corrupção no País pudesse ser menor. Afinal, quem não se lembra de casos como o Mensalão, o desvio de dinheiro na Saúde pública pelos ‘sanguessugas’, o tráfico de influência praticado pelo filho da ex-ministra Erenice Guerra e as negociatas do contraventor Carlos Cachoeira?
O levantamento da Transparência Internacional reforça a necessidade de reforma política no Brasil. Ela é demanda fundamental para moralizar a administração pública brasileira e combater a corrupção. É ação que deve ser capaz de ‘desprofissionalizar’ a política e desmantelar as organizações criminosas incrustadas no governo. Não é só através dela que o País vai enfrentar o problema, mas ela é indispensável nesse processo.

A reforma política deve remodelar os parâmetros comportamentais dos homens públicos brasileiros e uma de suas diretrizes deveria ser o combate aos políticos de carreira. Um cidadão que tenha perdido sua condição de sustentação no setor privado, passando a depender da política para sua manutenção, torna-se capaz de qualquer coisa para sobreviver. A profissionalização na política alimenta a vergonhosa corrupção que impera no Brasil.
Fonte: Diário do Grande ABC, de 01/07/2012.