Crédito ao agronegócio: por que a organização financeira é essencial

** Por João Luiz Agner Regiani

Durante muitos anos consolidou-se no agronegócio brasileiro a percepção de que bons produtores sempre encontrariam crédito para financiar suas atividades. Afinal, quem produz bem, possui patrimônio e gera resultados naturalmente inspira confiança nas instituições financeiras. Contudo, a realidade dos últimos anos demonstra que essa lógica deixou de ser suficiente.


Ao longo de mais de três décadas de atuação profissional, primeiro na advocacia, posteriormente exercendo funções de direção em instituição financeira de desenvolvimento e, atualmente, atuando na estruturação de operações financeiras para empresas e produtores rurais, tenho acompanhado de perto as profundas transformações ocorridas nos critérios de análise de crédito adotados pelas instituições financeiras.


O agronegócio continua sendo um dos setores mais relevantes da economia nacional, responsável por parcela significativa das exportações brasileiras e pela geração de riquezas em milhares de municípios.

Entretanto, as transformações econômicas ocorridas após os ciclos de aumento das taxas de juros, oscilações cambiais, eventos climáticos extremos e elevação dos custos de produção alteraram profundamente a forma como os bancos analisam operações de crédito.

Hoje, não basta produzir bem. É necessário demonstrar capacidade financeira, organização administrativa e planejamento de longo prazo.


Muitos produtores rurais se surpreendem ao perceber que propriedades altamente produtivas encontram dificuldades para obter financiamentos de investimento ou renegociar passivos existentes. Em grande parte dos casos, o problema não está na atividade rural em si, mas na forma como as informações financeiras são apresentadas às instituições financiadoras.


Durante os anos em que participei da análise e do acompanhamento de operações de crédito, observei inúmeras situações em que empreendimentos economicamente viáveis enfrentavam dificuldades não pela falta de patrimônio ou de capacidade produtiva, mas pela ausência de informações financeiras organizadas e capazes de demonstrar, de forma clara, a capacidade de pagamento do tomador.


Os bancos passaram a dedicar atenção cada vez maior ao fluxo de caixa, ao nível de endividamento consolidado, à concentração de vencimentos, à capacidade de pagamento futura e à qualidade das informações disponibilizadas durante a análise. A simples existência de patrimônio ou de garantias relevantes já não assegura a aprovação de uma operação.


Outro aspecto que ganhou importância é a profissionalização da gestão rural. Propriedades que adotam controles financeiros, planejamento tributário adequado, segregação de despesas pessoais e empresariais, além de acompanhamento periódico de indicadores econômicos, costumam apresentar melhores condições para acessar linhas de crédito e negociar condições mais favoráveis.


Também merece destaque o crescimento das linhas de financiamento voltadas à sustentabilidade, eficiência energética, armazenagem, irrigação, inovação tecnológica e agregação de valor à produção. Instituições de fomento, bancos de desenvolvimento, cooperativas de crédito e agentes financeiros especializados vêm ampliando o acesso a recursos direcionados para investimentos estruturantes, capazes de aumentar a competitividade do produtor rural.


Entretanto, o acesso a essas linhas exige cada vez mais planejamento. Muitas operações deixam de ser aprovadas não pela ausência de garantias ou pela inviabilidade do projeto, mas pela falta de estruturação adequada das informações econômicas e financeiras exigidas durante a análise.


Nesse contexto, surge uma mudança importante na cultura do crédito rural. O financiamento deixa de ser visto apenas como uma ferramenta para obtenção de recursos e passa a ser encarado como parte de uma estratégia de gestão do negócio rural. Planejar investimentos, organizar passivos, estruturar demonstrações financeiras e manter indicadores sob controle tornam-se fatores tão relevantes quanto a própria produtividade da atividade.


Temos percebido, nos últimos anos, que os produtores que melhor conseguem acessar as oportunidades oferecidas pelo mercado financeiro são justamente aqueles que passaram a tratar a gestão financeira com o mesmo grau de atenção dedicado à produção. Essa mudança de mentalidade tende a se tornar cada vez mais importante nos próximos anos.


O agronegócio brasileiro continuará demandando grandes volumes de investimentos para expandir sua capacidade produtiva, incorporar novas tecnologias e enfrentar os desafios climáticos e mercadológicos do futuro. Os recursos continuarão existindo. A diferença é que os financiadores estão cada vez mais seletivos na forma de concedê-los.


Por isso, o produtor que deseja crescer de forma sustentável precisa compreender que a boa gestão financeira deixou de ser um diferencial. Ela passou a ser uma condição essencial para acessar as oportunidades de crédito que movimentarão o futuro do agronegócio brasileiro.


** João Luiz Agner Regiani é advogado, especialista em estruturação de operações financeiras empresariais e rurais e ex-diretor do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).